Bom dia meus amigos,
Não nos encontramos mais sem querer pelas ruas e bares. Não nos telefonamos mais, por falta de tempo, por falta de vida.
Esse blog nasce para ser um ponto de encontro.
E também para suprir a necessidade de um espaço destinado à livre-expressão. Espero textos, contos, poesias, imagens, xingamentos, reclamações, livros, piadas ou qualquer outra coisa. São tantos os amigos que escrevem só para si, belezas trancadas em cadernos velhos, empoeiradas nos armários...
Enviem no guilherme.barros@gmail.com ou para o email dos outros integrantes da banda, que colocaremos tudo na íntegra.
Espero ansioso, beijos,
Meduza
posted by CARLOS HENRIQUE CASSIM at 4:51 PM
O CD ESTA QUASE PRONTO !!!
posted by CARLOS HENRIQUE CASSIM at 1:22 PM
Se ela dança, eu danço?
Conhecidos por sua rebeldia e aversão ao colonizador europeu, os índios Charrua participaram ativamente do movimento de independência e estabelecimento das fronteiras nacionais na região do Rio da Prata. Apesar de sua resistência, com o surgimento de Argentina, Uruguai e Brasil, levou-se adiante um processo de "limpeza étnica" que exterminou a população indígena remanescente de séculos de colonização. Num ato de traição e covardia o homem branco assassinou os mesmos povos que, anos antes, haviam ajudado na conquista de sua própria liberdade. Conta-se que os últimos três Charruas foram levados para um circo de aberrações na Europa, mas não suportaram tal coerção: morreram de tristeza.
Desde então, o processo de europeização de nosso continente se concretizou à custa de um número infinito de vítimas. No entanto, todo movimento vigente enfrenta o seu contra-movimento, a sua reação ao que está imposto. No campo artístico, atualmente este sistema opressor é estabelecido pelo império dos meios de comunicação de massa, concentrados nas mãos de poucas famílias no Brasil. Seus mecanismos de funcionamento auxiliam na pasteurização e bestialização de nosso cotidiano.
Hoje, na grande mídia, vivemos da glorificação de indignos: ligue a TV, olhe nas capas de revista e nas páginas dos jornais, ouça as rádios. Não há nada tão desaminador quanto essa mesmice, esse discurso poderoso que nos aleija de qualquer tipo de criatividade e crítica. De apresentadores cretinos a artistas totalmente incapacitados, o mau gosto reina na mediocridade do show business brasileiro e em seu aparato de revistinhas de fofoca e produtos inúteis endossados por nossos famosos subdesenvolvidos. Como uma verdade sua a programação televisiva subjuga e condena criminalmente seus telespectadores à filosofia do consumo e ao sentido vazio das banalidades casuais.
Em nossa realidade saturada de clichês, somos bombardeados a todo instante por idiotices descartáveis que, para atingirem a sua meta puramente monetária, baseiam-se em uma única lógica: ficar famoso. Como a cigarra, por mais que seu canto incomode, nos habituamos a ele, e como uma droga que vicia, nos condicionamos e a desejamos cada vez mais - já não conseguimos passar mais de cinco ou seis horas sem as babaquices a que a mídia nos submete. A decadência de nossa cultura é gritante: ontem Pixinguinha, Cartola, Vinícius; hoje breganejo, axé e funk. A partir de um modelo padronizado pelo mercado (baseados em apelos sentimentalóides e sexuais), nossas próprias manifestações populares foram expropriadas e transformadas em enlatados baratos, massificados e desprovidos de sua qualidade original. Enquanto isso, artistas talentosos permanecem guardados na gaveta de grandes gravadoras multinacionais.
Num dos países mais injustos do mundo, há duas explicações para o descaso irresponsável da arte e de seus financiadores: a hipocrisia cínica ou a insensibilidade ignorante. Nossa história foi escrita com o sangue dos índios, o suor dos negros e o gozo dos portugueses, ingleses e americanos, ou melhor, das elites brancas locais, tanto faz. O egoísmo de nosso "jeitinho" deixou o seu glorioso legado. Aqui, 20% compram e 80% sonham em beber, comer, transar, se entorpecer, enriquecer e esquecer que não existem porquês.
Para mulheres, estética, status, silicone e notícias da vida alheia. Para homens, carros, músculos, futebol, cerveja e sexo. Qualquer assunto que fuja ao habitual é ignorado e repudiado pelo comodismo e a omissão mental. Não é à toa que a expressão "foda-se" é a preferida num vocabulário de escassas palavras: nela está embutido (ao gosto do individualismo mais voraz) "todo o resto", ou melhor, "os outros". Isso que vemos à nossa volta é um reflexo da maneira hegemônica de pensar e agir no mundo.
Uma ideologia se caracteriza como vitoriosa quando essa não é mais vista de tal maneira, mas como algo natural. Sem dúvida, o mundo é, foi e sempre será um intermitente combate entre idéias, opiniões, e visões de mundo; o que não deixa de ser a fonte mais abundante de nossa maior riqueza: a diversidade. Para a salubridade de nosso senso crítico, é imprescindível que tenhamos sempre em mente essa idéia de confronto constante em oposição à apatia diante de um mundo já pré-estabelecido e definido. Ainda que tudo ao redor pareça naturalmente habitual, o "normal" é só uma ideologia dominante perante infinitas outras que existem no domínio do "diferente", do "estranho" e do "incompreensível". Se não podemos desligar o som nem trocar de estação, será que pelo menos é possível dançar de outra maneira?
Persistindo na resistência contra a "colonização do cotidiano" evocamos o grito bravio uruguaio: "Ponga la garra Charrua!"
posted by CARLOS HENRIQUE CASSIM at 1:36 AM